domingo, 3 de janeiro de 2016

São Justino, filósofo e mártir (II)

SÃO JUSTINO E O HUMANISMO CRISTÃO:  o Logos na filosofia grega

   A afirmação de Justino de que o cristianismo é a verdadeira filosofia, lhe trouce alguns problemas, não evitados pelo pensador:

Se o cristianismo é a verdadeira filosofia, o que dizer dos filósofos anteriores a Cristo? Iremos condená-los por não terem contato ou ignorado a revelação?

   Justino afirma que foram os mestres gregos que o haviam trazido às proximidades do cristianismo e defende que os mesmos merecem sim um lugar na religião de Cristo, visto que tiveram uma certa participação no Verbo. Assim, se torna fundador do Humanismo Cristão.

1 - Toda verdade está no Logos (Verbo), "que ilumina todo homem que vem a este mundo" 
Cf. Apol II, 10: "Pois Ele é o Verbo, que está em todo homem"
2 - Toda verdade deve ser relacionada ao Logos
3 - Na filosofia grega, se conhecera e praticara a verdade
4 - Na filosofia grega estava presente, mesmo que de forma imperfeita e fragmentada, o Logos


a) Os germes do Logos e o Logos Integral

   São Justino afirma que os filósofos antigos, como Platão e os estóicos, conheceram e praticaram a verdade. Por isso, tiveram parte no Logos, mas não o possuíram integralmente. O logos total encontramos em Cristo, mas naqueles filósofos somente em parte ou inicialmente.

1 - Os filósofos participam do Logos: todos os seus conhecimentos e descobertas eles os conquistaram por terem parte no Logos;
2 - Os filósofos não possuíram o Logos total: o que nos prova isso é o fato de que eles discordavam uns dos outros, visto que, cada um possuía uma parte do Logos e falava de acordo com ela. Esse Logos parcial Justino chama de "germe" ou semente do Logos, que, assim como afirmam os estóicos, está presente em todos os homens. Assim como a semente poderá germinar e dar frutos, o germe do Logos poderá levar os pagãos ao Logos integral manifestado em Cristo.
3 - Os filósofos participam tanto imediata como mediatamente no Logos: 
Participação imediata: por uma iluminação do Logos, ou por uso da razão natural;
Participação mediata: por influência do Antigo Testamento. Justino trata um pouco disso em sua Primeira Apologia, mas cala-se na segunda, abandonando essa afirmação.


b) A filosofia cristã da história e o humanismo cristão


Jesus Cristo > é > Logos
Filósofos antigos > participam > Logos
então: Filósofos antigos = cristãos antes de Cristo
=
Levou Justino a traçar o primeiro esboço de uma filosofia da história e os fundamentos de um Humanismo Cristão.



LOGOS   >   Odiado pelos demônios
=
Herança dos homens que participam do Logos e fogem dos vícios
=
Causa da morte de filósofos como Heráclito e Sócrates
=
Atingiu seu auge na perseguição aos cristãos que participam do Logos total



LOGOS   >   Odiado pelos demônios
=
propagaram a mitologia pagã
=
para que os milagres de Cristo fossem acolhidos com ceticismo



Antigos filósofos   =   Cristãos
=
participaram do Logos
=
participaram do mesmo destino doloroso
=
por isso podem ser chamados de "cristãos antes de Cristo"



Existem duas maneiras de participar do Logos:

Participação Parcial: filósofos antigos
Participação Total: cristãos

Esses dois grupos de partícipe formam juntos a COMUNIDADE CRISTÃ, que sempre existiu no decorrer da história.

   Assim, a História da Filosofia vai se unir à História do Cristianismo. Com Justino, então, vão surgir os primeiros sinais de uma filosofia da História que se desdobrará numa visão universal da História na "Cidade de Deus" de Santo Agostinho.




HERANÇA DE SÃO JUSTINO:

1 - deu domicílio à Filosofia no ceio do cristianismo
2 - elevou a Filosofia a um plano superior ao da pura razão

"Ninguém creu em Sócrates a ponto de dar a vida por sua doutrina, Quanto a Cristo, porém, a quem Sócrates já conheceu em partes (...), nele creem não só os filósofos e sábios, como também os artesãos e as pessoas simples, e isto com o mais perfeito desprezo às honrarias, ao temor e à morte. Pois ele é a força do Pai inefável, e não um vaso da razão humana" (São Justino)


Fonte da pesquisa: BOEHNER, Philotheus; GILSON, Etienne. História da Filosofia Cristã. 13 ed. Petrópolis: Vozes, 2012. Pg 29 - 32

sábado, 2 de janeiro de 2016

São Justino, filósofo e mártir (I)



São Justino foi um dos grandes apologetas (utilizavam seus conhecimentos para defender a fé) cristãos, entre os pensadores antigos.
    Foi inicialmente pagão e, já adulto, converte-se ao cristianismo, não abandonando nunca a Filosofia. Para ele o pensamento filosófico é aquilo que nos conduz à Deus. O problema estava em qual caminho do pensamento humano seguir. 

FILOSOFIA    >   BUSCA PELA VERDADE
DEUS   >   É A VERDADE
então: FILOSOFIA   >   BUSCA DEUS (CONTEMPLAÇÃO DA VERDADE)

Mas qual o problema?

FILOSOFIA   >   BUSCA DEUS   =   MAS QUAL CAMINHO FILOSÓFICO SEGUIR?

a) Justino desilude-se com a Filosofia Grega:


    São Justino começa sua vida intelectual e permanece na filosofia platônica, mas logo vê que a filosofia grega não conseguia responder aos problemas mais essenciais do homem.
    Antes ainda de ter contato com o platonismo, teve um encontro com outras formas de pensar: estóicos, peripatéticos e pitagóricos. Se desilude com todas essas formas de pensar e volta-se finalmente para a filosofia platônica, onde permanece por um bom tempo de sua vida. 
    Assim como ocorre depois com Santo Agostinho, entusiasma-se pelo idealismo da especulação platônica e principalmente pela doutrina da existência de realidades incorpóreas, as idéias. Para Justino era certo que logo contemplaria Deus, fim último da filosofia de Platão.

FILOSOFIA > PLATÃO = BUSCA DA CONTEMPLAÇÃO DE DEUS = FELICIDADE

   São Justino então passa a viver isolado em um lugar à beira mar. Queria entregar-se à contemplação e meditação para conseguir chegar ao fim último da Filosofia, a saber, a contemplação de Deus.
   Nesse lugar ocorre um fato que mudrá sua história. Num determinado dia encontra-se com um ancião, o qual lhe questiona: o que entendes por Filosofia e Felicidade?

Respondeu Justino:

Filosofia = ciência do ser e o conhecimento da verdade
Felicidade = prêmio desta ciência e desta sabedoria 

Pergunta ainda o ancião: o que é Deus para você?

Novamente respondeu Justino:

Deus = é o que permanece invariavelmente idêntico e é a causa de todos os seres

   Essa resposta mostra como São Justino, nesse momento, já se distanciava muito dos pagãos. 

   O ancião continua a questionar Justino para fazer florescer um conhecimento já presente no seu interior: como podem os filósofos falarem de Deus se não possuem nenhum conhecimento dele, nem jamais o viram ou ouviram?

  Justino responde dizendo que, segundo Platão, temos um olho espiritual que nos capacita a contemplar, em si mesmo, aquele ser que é a causa de todas as coisas sensíveis e ainda afirma que existe um parentesco entre a alma e Deus. Para o homem conseguir chegar a essa contemplação, somente é possível por meio de uma purificação e posteriormente vivendo uma vida virtuosa.

   O ancião, por sua vez, refuta a ideia de que a alma possui parentesco com Deus, provando que não há nada de divino nela e muito menos que é formada por uma parte divina. Ele prova para Justino a incoerência dessa doutrina mostrando que a alma, assim como o mundo e o corpo, tem um início em sua existência e que não são imortais como Deus é. 

   São Justino então é forçado a admitir que seus mestres eram incapazes de conduzi-lo à verdade. E acaba questionando-se: quem poderá ser seu mestre? onde encontrar ajuda se nem esses homens sábios levaram-o à verdade?


b) São Justino descobre a verdadeira filosofia no cristianismo:

   A partir da certeza de que a alma não pode obter a visão de Deus enquanto permanecer no domínio meramente natural, acaba aceitando a religião que, não só promete conduzi-lo a Deus, mas que também lhe proporciona os meios para conseguir isso.
   O cristianismo cumpre com a finalidade de toda Filosofia, por isso ele é a "verdadeira filosofia".

CRISTIANISMO   >   NOS LEVA A CONTEMPLAR DEUS
FILOSOFIA   >   BUSCA DA VERDADE
DEUS   =   E A VERDADE


CRISTIANISMO   >   CONTEMPLA DEUS PARA ALCANÇAR A FELICIDADE
FILOSOFIA   >   CONTEMPLA A VERDADE PARA ALCANÇAR A FELICIDADE

então: CRISTIANISMO   É A VERDADEIRA FILOSOFIA

   São Justino manifesta ao ancião o desejo de saber onde se encontra o verdadeiro caminho que o levará a Deus. O ancião lhe indica as Sagradas Escrituras: escritas por homens inspirados pelo Espírito Santo, que contemplaram a verdade e anunciam-na sem temor e sem ambições terrenas, sendo testemunhos oculares da verdade, e por isso exigem  fé, visto que, não trazem argumentos. 
   Justino entende ainda que o meio para se chegar à contemplação da verdade necessita de muita oração, para que a luz da verdade se abra,  pois só contempla aquele que Deus e seu Cristo conferem a inteligência necessária. 
   Ele apaixona-se pelo cristianismo se tornando cristão e diz que é assim que se tornou um verdadeiro filósofo, contemplando a verdade suprema que é Deus.

c) São Justino refunde o conceito de Filosofia:


"EIS PORQUE  COMO ME TORNEI UM VERDADEIRO FILÓSOFO"
                                                          =
TRANSFORMAÇÃO COMPLETA DO CONCEITO DE FILOSOFIA
                                                          = 
PASSA DAS MÃOS DOS GREGOS PARA AS MÃOS DOS CRISTÃOS


   Para Justino, os problemas levantados pela sabedoria grega são os mesmos respondidos pelo cristianismo.


FILÓSOFOS + CRISTÃOS = BUSCAM DEUS E ASPIRAM À UNIÃO DA ALMA COM ELE


   A filosofia grega, ao buscar um objetivo religioso, cria para si um problema irresolvível, pois está alem das forças da razão humana. Para esse tipo de problema pode haver duas soluções para a Filosofia:

1 - ou fica somente ligada a um objetivo que lhe é acessível, o qual não poderá ser de natureza religiosa;

2 - ou seu objetivo se transforma em uma realidade propriamente religiosa e, nesse caso, deverá transcender a filosofia natural adotando a religião cristã, a qual tomará assim o nome de "Filosofia".

   Para Justino isso prova que o cristianismo é  verdadeira filosofia e que, pela conversão, ele se tornou um verdadeiro filósofo, a saber, o fato de que é a fé cristã que permite a razão alcançar as verdades mais imprescindíveis. 
   Além disso, as verdades cristãs nos trazem a graça divina, tornando-se, não só a filosofia plena, mas também caminho de salvação, graças às mudanças que incutem na vida daquele que nelas se aprofundam.





Fonte da pesquisa: BOEHNER, Philotheus; GILSON, Etienne. História da Filosofia Cristã. 13 ed. Petrópolis: Vozes, 2012. Pg 26 - 28

Introdução

A Paz de Cristo Jesus esteja com todos vocês meus irmãos!

Estarei iniciando nesse espaço uma série de textos, de minha autoria, onde irei tratar acerca da Filosofia Cristã: pensamentos, desenvolvimento de ideias, correntes filosóficas, vida, obra e pensamento dos principais filósofos cristãos da história.
Na realidade estarei publicando aqui resumos dos estudos realizados por mim, compartilhando assim tudo o que localizo nas bibliografias pesquisadas sobre esse tema.

Que possamos degustar essas informações, para a maior glória de Deus!